A ultima sessão de gravações do NIRVANA

A ultima sessão de gravações do NIRVANA

A ultima sessão de gravações do NIRVANA em estúdio aconteceu nos dias 28, 29 e 30 de Janeiro de 1994. Elas foram no Robert Lang Studios, ao norte de Seattle, WA. Saiba tudo à respeito agora:

Dave Grohl lembra que Kurt Cobain queria originalmente gravar no Studio X Seattle de Seattle. Grohl, no entanto, tinha ouvido coisas boas sobre um estúdio em seu bairro e sugeriu que eles tentassem. 

Descobri que havia um estúdio a duas quadras de distância da minha casa. Alguém da nossa equipe me contou sobre isso. Sabe, tem esse cara, Bob Lang, que construiu um estúdio completamente subterrâneo. 'O que?' E é do tamanho de um ginásio. 'Merda!' Então eu disse: 'Ei, e esse lugar tão perto da minha casa?'.

Dave Grohl

Krist Novoselic e Dave foram conhecer o estúdio em Dezembro de 1993 e ficaram impressionados com o espaço.
Earnie Bailey, que era técnico de guitarras do NIRVANA, lembra:

É um lugar incrível, como foi construído, abaixo de uma casa em um bairro residencial. Muito mais do que um estúdio no porão, este lugar desceu muito abaixo do solo, e as histórias de Bob Lang de como isso aconteceu eram igualmente, se não mais bizarras. A sala principal do estúdio, com seu teto de 24 pés de altura, havia sido essencialmente esculpida em uma encosta.

Earnie Bailey

Antes da primeira sessão, Lang e o produtor Adam Kasper arrastaram galhos de árvores e acenderam velas ao redor do estúdio para melhorar o humor. Krist e Dave chegaram no estúdio na tarde de sexta-feira (28), dois dias antes de Kurt (Pat Smear não estava presente para as sessões). De acordo com Lang, Cobain não era esperado até o dia seguinte:

Ouvi algo tipo 'espero que Kurt apareça na sexta-feira'. Mas eu não acho que eles estavam realmente estressados ​​por isso. Eles acreditavam que se ele não viesse no sábado, ele definitivamente estaria lá no domingo. Eu achei um pouco estranho que Kurt não estivesse lá, mas Krist e Dave apenas seguiram seus negócios e ficaram focados no que estavam fazendo.

Robert Lang
Robert Lang Studios - 19351 23rd Ave NW Seattle

De acordo com Charles Cross, o paradeiro de Cobain na sexta-feira era desconhecido para Krist e Dave. Courtney Love já havia partido para o exterior com o Hole e ninguém atendia o telefone na casa dos Cobain. Cross sugere que Krist e Dave já estavam acostumados com isso, o que corresponde à afirmação de Lang de que eles não ficaram preocupados/surpresos com a ausência de Kurt.

Krist e Dave fizeram pleno uso do estúdio na ausência de Kurt, registrando demos e improvisos. Como disse Grohl; “Era apenas Krist e eu brincando com coisas engraçadas como a ‘Skid Mark’. Gravei algumas das minhas músicas também. Apenas tentamos aproveitar o tempo que tínhamos”. A maioria das gravações da “cozinha” do NIRVANA foram feitas sem vocais e com títulos improvisados.

O fim do NIRVANA e o incio do Foo Fighters?

Se por um lado o NIRVANA não produzia muito em conjunto, por outro, Dave Grohl estava mais criativo do que nunca. A ultima sessão de gravações do NIRVANA acabou se tornando meio que… o inicio do Foo Figthers.
Abaixo, uma lista de algumas musicas tocadas nas ultimas sessões de estúdio no Robert Lang Studios. As musicas citadas, até onde se sabe, não tem a participação de Kurt Cobain, que foi o ultimo a chegar e um dos primeiros a sair do estúdio.

"Dave w/Echoplex"

Esta música apresenta Dave Grohl e o técnico de guitarras do NIRVANA, Earnest Bailey. A música é resultado de uma ideia que surgiu quando Bailey conectou um teremim em uma Echoplex para mostrar os sons que ele produzia. Bailey lembra: “Dave realmente gostou e pulou para trás da bateria para tocar. Nós não passamos um tempo elaborando um conceito e tal… e as melhores coisas podem ter acontecido antes de Adam apertar o botão de gravação!”.

"New Wave Groove"

Três tomadas foram gravadas desta música que possui guitarra, baixo e bateria. As duas primeiras execuções duram cerca de sete minutos e uma versão mais curta também foi gravada. A melodia para “New Wave Groove” pode ser ouvida em “Bill Hill Theme” e “Final Miracle”, da trilha sonora do filme Touch, de 1997. Alias, Dave Grohl compôs, produziu e executou a trilha sonora do filme dirigido por Paul Schrader.

"New Beat/In Cars"

Esta música é muito semelhante a “New Wave Groove”. O mesmo riff é usado por toda parte. Duas versões foram gravadas: uma com o baixo tocando a melodia e a outra com a guitarra.

"Chris w/Acoustic"

Esta música apresenta Krist Novoselic no violão e foi descrita por Earnie Bailey como tendo um riff de Bo Diddley. Dave Grohl acompanha na bateria. “Lembro-me de pensar, que tipo de vocais eles vão colocar nisso?”, contou Robert Lang.

"Dave/Acoustic+Voc"

Esta é uma versão inicial de “February Stars” (lancada pelo Foo Fighters em The Colour And The Shape, em 1997). Possui letras alternativas e os sons de um gatinho no início. O tal gato era um gato de rua que vagava pelo estúdio enquanto a banda gravava. Krist toca um harmônio. De acordo com Earnie Bailey, Novoselic tocando harmônio realmente “fez” a música. Ela foi a favorita de toda a sessão.

"Exhausted"

Outra canção lançada mais tarde pelo Foo. A música é completa e praticamente idêntica à versão que aparece no primeiro álbum do Foo Fighters (homônimo), de 1995.

"Big Me"

Assim como “Exhausted”, é praticamente idêntica à versão que aparece no primeiro álbum Foo Fighters.

"Butterflies"

O biografo Charles R. Cross refere-se a “Butterfly” como sendo uma composição de Kurt Cobain (ele afirma que é). Cross acrescenta que foi gravada sem vocais e não foi completamente finalizada. No entanto, de acordo com a escritora Gillian Gaar, este não é o caso; “Cobain já tinha deixado o estúdio no momento em que isso foi gravado”, disse ela.

"French Abortion"

Esta é uma das músicas de Krist Novoselic. Foram gravadas duas tomadas, nenhuma das quais apresenta vocais. Uma tomada é de quase nove minutos, enquanto a mais curta apresenta um harmônio e um bandolim.

"Skid Mark"

De acordo com Gillian Gaar, essa música de um minuto e meio é apenas uma piada pop. Possui Grohl gritando “skid mark” ao longo de sua curta duração. De acordo com Charles Cross, que se refere à música como “Skid Marks”, e Jim DeRogatis, esta é uma composição Kurt Cobain. Gillian Gaar mais uma vez discorda, já que Kurt já teria deixado o estúdio naquele ponto. O crítico de música, DeRogatis, a descreveu como um tributo estranhamente funerário a cuecas manchadas. “Skid Marks” ou “Skid Mark”, é uma referência a manchas na cueca. Kurt jamais se livrou de obsessão por matéria fecal.

"Thrash Tune"

De acordo com Gaar, essa musica é apenas uma breve explosão de barulho.

Kurt Cobain chega para a última sessão de gravações do NIRVANA

No domingo, 30 de Janeiro de 1994, Kurt Cobain finalmente chegou ao estúdio, usando sua jaqueta de veludo e de mãos vazias. Nesse ponto, de acordo com Robert Lang, Krist Novoselic e Dave Grohl estavam cansados:

A vibração era tipo, Deus, Kurt ainda vai aparecer? O tempo reservado no estúdio estava acabando. Eu tinha dois deles aqui, então pensei, vamos lá. Eu estava cruzando os dedos e sei que Adam também.

Robert Lang

Ao entrar no estúdio, Kurt imediatamente se sentou. Dave pediu para Kasper tocar parte do que ele e Krist haviam gravado. Segundo Lang, Cobain respondeu; “Isso parece bom. Temos uma vibe legal aqui”. Cobain então se preparou para tocar.
No entanto, surgiu um problema imediato quando ficou evidente que Kurt não havia sequer levado seu próprio equipamento. “Krist e Dave trouxeram suas coisas e acreditamos que Kurt faria o mesmo”, diz Earnie Bailey.

"Parecia que íamos ter que cancelar a sessão, mas eu tinha uma guitarra Univox que concertei para Kurt no carro e ele trouxe uma parecida também para eu arrumar para ele. Ele usou o Marshall de 50 watts do estúdio, o que ele odiava, e meu set de pedais que, felizmente, tinha um pedal de distorção Boss. O pedal não era o preferido dele, mas chegamos perto de algo que ele gostasse.

Earnie Bailey

A sessão do NIRVANA começou com uma longa jam de 20 minutos. Gillian Gaar diz que parte da jam tem Kurt tocando o riff do “Verse Chorus Verse”. A banda então começou a trabalhar na música “You Know You’re Right”, que no momento da gravação, era simplesmente chamada de “Kurt’s Tune # 1”.
Novoselic confirmou que esta música foi tocada em soundchecks de shows, nos quais eles ainda estavam meio que “encaixando peças”. Krist descreveu o processo de composição: “Nós a bombardeamos juntos rapidamente. Kurt tinha o tema e o introduzia e nós o definimos. Nós a Nirvanizamos”. Uma composição singular de Kurt foi completada com vocais e representa um dos pontos altos de toda a sua obra. Em termos de letra, os versos foram rigidamente elaborados, com um estribilho obsessivo e atormentado de “You Know You’re Right”

O primeiro verso era uma lista de declarações que começavam por “Eu nunca te aborrecerei / Eu nunca prometeria / Se eu disse essa palavra novamente / Eu me mudarei para longe daqui”. Um dístico (que só poderia vir de Kurt Cobain) era: “Estou andando em mijo / Sempre soube que acabaria nisto”. O segundo verso se desvia para declarações sobre uma mulher: “Ela só quer amar a si mesma” e se encerra com dois versos que têm de ser sarcástico: A música é conhecida por ter sido tocada ao vivo só uma vez, no show do Aragon Ballroom, em 23 de Outubro de 1993 – quando foi chamada de “On the Mountain”.
Nas gravações a banda colocou a música em primeiro lugar. Gaar descreve três das tomadas da seguinte maneira:

Take # 1

Mesmo no primeiro, os conceitos básicos foram muito bem esboçados. O que veio em seguida era apenas um trabalho mais refinado deste.

Take # 2

Antes de gravar outra tomada, a banda discutiu a trilha. Dave sugeriu que eles começam de forma diferente: “Comecemos com algo mais silencioso, como nos pratos”. Kurt concordou: “Sim, vamos apenas fazer alguma coisa no chimbal ou algo assim e nos pratos. Tudo realmente silencioso e depois você entra”. Dave, em seguida, entra com a bateria, ao qual Cobain exclama: “Yeah e vou tentar avisar quando cantarei”. A banda então toca novamente, depois que Kurt afirma achar aquilo perfeito.

Take # 3

Esta é a primeira gravação com aquele inicio característico da música. Gaar explica que Cobain fez isso tocando as cordas na “mão” da guitarra, ou Kurt teria tocado as cordas atras da ponte da Univox.

O fim da ultima sessão de gravações do NIRVANA

Depois de gravar “You Know You’re Right” a banda fez uma pausa para comer. Robert Lang lembra que eles estavam de muito bom humor. Kurt Cobain ria enquanto contavam sobre o encontro da banda com Eddie Van Halen no dia 30 de Dezembro de 1993.

“Fomos comer pizza”, lembrou Earnie Bailey. “Estávamos rindo e relaxados; Tivemos um grande momento. Mas quando voltamos ao estúdio, de repente, Kurt ficou quieto novamente e sentiu-se tenso”. Ainda assim, Gillian Gaar lembra que a banda voltou de bom humor. Eles gravaram as faixas instrumentais rapidamente e então, chegou a hora de fazer os vocais.

Aproveitando do bom humor, eles ainda gravaram a musica improvisada conhecida como “Jam After Dinner”, um soco punk de três minutos e meio no qual Kurt abusa do seu pedal de distorção. O gatinho preto que de “February Stars” também ajudou a deixar Kurt consideravelmente mais leve. Ele se parecia um pouco com Puff, o gatinho de estimação da infância de Kurt.

Em um ponto, Cobain se deitou no chão de mármore frio do estúdio para aliviar a dor nas costas.

As costas dele o estavam machucando. E então ele se levantou e foi direto cantar o vocal para 'You Know You're Right'. Os vocais foram feitos em apenas uma tomada, com dois overdubs vocais adicionados. Adam e eu ligamos alguns alto-falantes e os colocamos fora de fase, porque Kurt não gostou de usar fones de ouvido.

Robert Lang

De acordo com Krist, poucas mudanças foram feitas para a mixagem original de “You Know You Right” para seu lançamento em 2002, apenas um pouco de compressão e talvez um pouco de reverb.
Bailey lembrou de quando estava para volar para casa: 

Então, eu fui para o meu carro. Eu estava prestes a ligar a ignição quando tive esse sentimento assustador de que 'era isso'. Foi terrível. Então eu pensei: eu preciso quebrar isso. Voltei para dentro do estudio e comecei a apanhar cabos ou algo assim. Eu não disse nada a Kurt porque eu não queria incomodá-lo, mas eu olhei para ele enquanto ele estava tocando violão com as costas viradas e pensei, 'não, isso é ridículo, isso não é nada'. Saí e entrei no carro e fui embora, e foi assim. Essa foi a última vez que o vi.

Earnie Bailey

No final da ultima sessão de gravações do NIRVANA, Kurt Cobain procurou o gatinho preto, mas ele havia desaparecido.

Fontes:

LiveNirvana
1997, Gillian G. Gaar – Verse Chorus Verse: The Recording History of Nirvana
2001, Charles R. Cross – Heavier Than Heaven
2002, Rasmus Holmen – NirvanaClub entrevista Earnie Bailey
2002, Jim DeRogatis – A Piece of Kurt Cobain

 


2002, Chris Heath – Who owns the music of Kurt Cobain? The Nirvana Wars
2004, Gillian G. Gaar – NIRVANA: The Lost Tapes, MOJO.
2005, Gillian G. Gaar – If There Walls Could Rock
2009, Gillian G. Gaar – The Rough Guide To Nirvana

"Boddah"

Fã de Nirvana desde a primeira vez que o peso de "Bleach" entrou por meus ouvidos. Antes de tudo, um curioso insaciável. Pesquiso para aprender, escrevo para compartilhar o que aprendi."A curiosidade matou o gato, mas a satisfação o trouxe de volta!"
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