Floyd The Barber – Dissecando a Musica

Floyd The Barber – Dissecando a Musica

Você já deve ter se perguntado quem é “Floyd The Barber”. Logo depois, se é um fã curioso, provavelmente tenha pesquisado a respeito e encontrado uma resposta vaga. Mas aqui nós vamos lhe contar TUDO sobre os personagens e a musica do Nirvana:

A musica “Floyd The Barber”

“Floyd The Barber” foi escrita por Kurt Cobain na primeira metade de 1987. Sim, muito antes do seu lançamento oficial, no álbum de estreia da banda, “Bleach”. Na época o Nirvana nem se chamava Nirvana e Dave Grohl ainda era desconhecido de Kurt e Krist.

A gravações

O primeiro registro gravado que se tem conhecimento de “Floyd The Barber” é do dia 06 de maio de 1987, na Radio KAOS do The Evergreen State College, em Olympia, WA. A co-produção dos programas Out of Order e Tony Crash Backside Bone Beefcake foi ao ar naquele mesmo dia. Ela serviu como uma fita demo inicial com dez faixas e ajudou a banda a conseguir uma série de shows no Community World Theatre de Tacoma, WA.Os DJs responsáveis pela produção e apresentação eram Donna Dresch e John Goodmanson. John conheceu a banda no show do GESCCO, em Olympia (01 de maio de 1987). Na época, Aaron Burckhard era o baterista e eles se chamavam Skid Row.
Em 03 de janeiro de 1988 eles voltaram a grava-la. Mas desta vez durante um ensaio na casa do novo baterista, Dale Crover. Esse teria sido o primeiro dos três ensaios preparatórios para a sessão no Reciprocal Recording, em Seattle, WA. Sabe-se que a gravação existe, mas ela nunca veio a publico.

No Reciprocal Recording – “Dale Demo”

Em 23 de janeiro de 1988, sob o nome Ted Ed Fred, a banda formada por Kurt Cobain, Krist Novoselic e Dale Crover, entrava no Reciprocal Recording de Seattle para a gravação da demo que ficou conhecida como “Dale Demo”. Em menos de seis horas, gravaram e mixaram nove canções e meia, incluindo a versão de “Floyd The Barber” lançada em “Bleach”.O produtor Jack Endino ficou impressionado com a banda, mas não muito abertamente. Ao fim do dia ele ainda foi generoso o suficiente para cobrar por apenas cinco horas, a um custo de US$ 152,44. Kurt pagou pela sessão com o dinheiro que ganhou trabalhando como zelador no Weatherwax High School. “Foi tão rápido que eu quase não lembro de falar com eles. Foi uma das sessões mais rápidas que já fiz. Eles tinham que voltar para Tacoma e não tinham muito dinheiro para gastar. Eles tinham pressa.” lembrou.

Nirvana no Reciprocal Recording

Entre junho e setembro de 1988, novamente a banda grava no Reciprocal Recording. Dessa vez eles já se chamavam Nirvana e Chad Channing era o baterista. Foram quatro sessões nas quais gravariam onze musicas. Dali saíram as versões de “Big Cheese” e “Love Buzz” que foram lançadas em “Bleach”. Mas essa gravação de “Floyd The Barber”, que aconteceu no dia 30 de junho, não foi lançada oficialmente.Eles acabaram descobrindo que não conseguiriam fazer melhor que da ultima vez. Endino conta que eles a odiaram. Depois eles acabariam gravando o instrumental de “Love Buzz” por cima da fita em que gravaram uma versão inicial de “Blew” e “Floyd The Barber”. De “Blew” não sobrou nada, enquanto de “Floyd The Barber”, apenas 1:26 min. se salvou. Eles queriam economizar fita, por isso gravavam por cima das faixas que menos agradaram.

O “clipe” de “Floyd The Barber”

No dia 20 de março de 1990, a banda entrou furtivamente numa sala de aula do The Evergreen State College, em Olympia com alguns amigos para filmar o que Kurt imaginava poder ser um vídeo oficial da banda. Cobain estava convencido de que ter um vídeo na MTV era seu passaporte para a fama. O plano era que a banda tocasse enquanto ao fundo seriam projetadas vinhetas que ele havia gravado da televisão.“O filme tinha bonecas quebradas, bonecas em chamas ou coisa do tipo Toy Story, onde as bonecas são todas montadas de maneira errada”, lembra Alex Kostelnik, que operava uma das câmeras. Kurt propôs que a gravação continuasse e fosse a Aberdeen para adicionar mais tomadas de seus fantasmas de infância. Quando Kurt assistiu á fita concluída, até ele percebeu que pareciam mais amadores fingindo ser astros do rock do que músicos profissionais. Como muitas de suas idéias, jamais foi posta em prática.

Mas quem é “Floyd The Barber” (o Barbeiro)?

A letra de Floyd The Barber” foi inspirada na serie de TV norte-americana The Andy Griffith Show. Na musica o narrador, no caso Kurt Cobain, conta sua experiencia ao visitar a barbearia de Floyd Lawson, o barbeiro local da cidadezinha de Mayberry, interpretado por Howard McNear. Mas na história de Kurt, os pacatos moradores de Mayberry são na verdade, assassinos em serie.

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The Andy Griffith Show

The Andy Griffith Show é uma sitcom norte-americana que foi ao ar originalmente na CBS de 3 de outubro de 1960 a 1 de abril de 1968. Foram produzidos 249 episódios, divididos em oito temporadas. Os 159 primeiros episódios foram produzidos em preto e branco e os outros 90 em cores.

A série gira em torno da vida do xerife Andy Taylor, interpretado por Andy Griffith, em uma pequena e pacata cidadezinha da Carolina do Norte chamada Mayberry. A cidade é fictícia, mas foi inspirada na terra natal de Griffith, Mount Airy, também da Carolina do Norte.

O xerife viúvo vive com sua tia solteirona Bee Taylor, a tia Bee (interpretada por Frances Bavier) e seu filho, Opie (interpretado por Ron Howard – mais tarde diretor de Apollo 13 – atualmente com 64 anos). Dentre os outros moradores importantes para a série estão o sub-xerife e primo de Andy, Barney Fife (interpretado por Don Knotts) e é claro, o barbeiro local, Floyd Lawson (interpretado por Howard McNear).

Floyd, o barbeiro, como era conhecido, é proprietário da Floyd’s Barber Shop de Mayberry. O “lerdo” e um pouco distraído barbeiro apareceu pela primeira vez no episodio “Stranger in Town”, o 12º da primeira temporada. Apesar de McNear ser “a cara” do Floyd, foi Walter Baldwin quem o interpretou pela primeira vez (primeira e unica por sinal). Baldwin alias, foi quem estabeleceu a piada da “incapacidade de Floyd de aparar as costeletas uniformemente”, que continuou a ser usada durante toda a série.

Howard McNear interpretou Floyd pela primeira vez no episodio “Mayberry Goes Hollywood”, 13º da primeira temporada. Nessa primeira aparição de McNear, o sobrenome do personagem era “Colby”, depois disso, sempre “Floyd Lawson”.

Durante a terceira temporada da serie, a “importância” de Floyd diminuiu. Foi depois que McNear sofreu um derrame e, consequentemente, teve que mudar sua a postura dos diálogos do “Floyd hiperativo” para um Floyd mais “lerdo” (como citado acima) com o passar do tempo. Depois do ocorrido, ele sempre foi visto sentado ou escorado no set. O personagem de Floyd também se tornou menos envolvido nas histórias da série com o passar do tempo.

A ultima aparição do barbeiro Floyd em The Andy Griffith Show foi no episodio “Goober’s Contest”, o 30º da sétima temporada, exibido originalmente no dia 10 de abril de 1967. “Floyd the Barber” aparece brevemente na abertura da série de desenhos animados da Warner Bros de 1995, “Freakazoid!”, criada por Steven Spielberg.

O Fim da Serie

A série nunca ficou abaixo do 7º lugar nas classificações da Nielsen Media Research (tipo o Ibope dos Estados Unidos) e terminou sua temporada final no número um. Embora nem Andy Griffith nem o programa tenham ganhado prêmios durante suas oito temporadas, as co-estrelas Knotts e Bavier acumularam um total combinado de seis prêmios Emmy.

Depois da oitava temporada, quando Andy Griffith se tornou um dos membros do elenco original a sair do programa, a sitcom foi renomeada para Mayberry, R.F.D., com Ken Berry e Buddy Foster substituindo Andy Griffith e Ron Howard em novos papéis. No novo formato, foram rodadas mais três temporadas e 78 episódios, terminando em 1971. As reprises do programa são frequentemente transmitidas para TV Land, MeTV e SundanceTV, enquanto a série completa está disponível em DVD. A sitcom também foi disponibilizada em serviços de streaming de vídeo, como o Netflix (não disponível no Brasil). Um festival anual celebra a sitcom todos os anos na cidade natal de Griffith, Mount Airy, Carolina do Norte. É o Mayberry Days.

Agora que conhecemos a musica e os personagens, vamos à letra de “Floyd The Barber”

Na letra da canção, Cobain se coloca no lugar de mais uma vitima que inocentemente vai se barbear com Floyd. No primeiro verso, Kurt entra, acionando o sino pendurado na porta (aqueles usados para alertar o dono do estabelecimento quando um cliente chega). Ao ouvir o “clank”, o barbeiro Floyd Lawson chama Cobain e observa seu queixo barbado. Como em uma cena digna de um filme de suspense, o serial killer tranquiliza a vitima, orientando-o a se sentar e não ter medo. Em seguida, uma toalha quente é colocada sobre o rosto de Kurt. Com o pretexto de relaxar o cliente e facilitar o trabalho de barbeiro, Floyd deixa Cobain vulnerável aos abusos que se seguiriam.
Obs: A letra de “Floyd The Barber” é uma das mais contestadas do Nirvana. Acreditava-se que no incio por exemplo, Kurt cantava “Hello, Cobain. Come on in” (“Olá, Cobain. Entre”), mas na verdade ele diz:

Bell on door clanks: Come on in
Floyd observes my hairy chin
Sit down chair don’t be afraid
Steamed hot towel on my face

I was shaved
I was shaved
I was shaved

O sininho na porta toca: Pode entrar
Floyd observa meu queixo barbado
Sente-se na cadeira, não tenha medo
Toalha quente fumegando sobre o meu rosto

Fui barbeado
Fui barbeado
Fui barbeado

No segundo verso da musica, Kurt é amarrado à cadeira pelo “sub-xerife”, Barney Fife. Morrendo de medo, Cobain só consegue ouvir a respiração forte de Floyd e ouvir um abrir de zipper. Em seguida, diz sentir um pênis sendo pressionado contra seus lábios. “Eu fui humilhado”, reclama ele… Essa é outra fala contestada entre fãs. Apesar de aparecer em “Bleach” como “I was shaved” (“Eu fui barbeado”), na página 46 do livro Journals, Kurt escreve “I was shamed” (“Eu fui humilhado”).

Barney ties me to the chair
I can’t see I’m really scared
Floyd breathes hard I hear a zip
Pee pee pressed against my lips

I was shamed
I was shamed
I was shamed

Barney me amarra à cadeira
Não posso enxergar, estou morrendo de medo
Floyd respira forte, ouço um zipper
Pênis empurrado contra meus lábios

Fui humilhado
Fui humilhado
Fui humilhado

No ultimo verso, outros moradores de Mayberry se juntam à Floyd e Barney para “terminar o trabalho”. Kurt sente a presença deles na sala. O garoto Opie e a tia Bee, ele presume. Os assassinos frios se revezam para “cortar” Kurt. No fim, Cobain morre “sufocado no traseiro” do xerife Andy.
Enquanto muitos pensam que a frase final diz: “I die smothered in Andy’s clutch” (“Eu morri sufocado nas garras de Andy”), o rabisco de Kurt em seu diário mostra a letra como: “I died smothered in Andy’s butt” (“Eu morri sufocado na bunda de Andy”).

I sense others in the room
Opie, Aunt Bea, I presume
They take turns and cut me up
I died smothered in Andy’s butt

I was shaved
I was shaved
I was shaved

Sinto outras presenças no salão
Opey, tia Bee, eu presumo
Eles se revezam e me esquartejam
Morri sufocado no traseiro de Andy

Fui barbeado
Fui barbeado
Fui barbeado

A Mensagem da Musica

Seria muito errado afirmar que não há nada por trás da letra de Kurt Cobain. Ele sempre, ou quase sempre, tinha alguma coisa a dizer em suas canções. As vezes explicitamente, as vezes não.

“Quando escrevo uma canção a letra é o menos importante”, disse o próprio Kurt uma vez. Mas ser menos importante, não significa que não tenham sua importância. No caso de “Floyd The Barber”, uma boa explicação para Cobain ter transformado os moradores de Mayberry em assassinos sanguinários, eu encontrei na analise de Marcelo Orozco em seu livro Kurt Cobain – Fragmentos de uma Autobiografia:

“Na aversão à sua terra, Cobain desenvolveu essa fantasia, onde aquele que é tomado por esquisito vira vitima de ‘pessoas de bem’ mais loucas que ele.
O delírio usa personagens da serie The Andy Griffith Show. Nada mais família, cheia dos valores conservadores ‘torta de maça esfriando na janela’ do interiorzão norte-americano.
Na fictícia Mayberry da serie, o xerife Andy tinha tinha poucos crimes para resolver. Passava mais tempo soltando filosofia de vida nos dedinhos de prosa com outros habitantes. Um deles era o barbeiro Floyd, um senhor de bigodinho, óculos e cabelo brilhantinado – a imagem do certinho.
Kurt sabota essa imagem ao se imaginar na barbearia do bom Floyd. A visita do elemento esquisitão libera insanidade no recinto e os cortes vão alem dos cabelos e barba.
O humor negro pirado de Cobain ‘explica’ a falta de crimes para o xerife Andy solucionar: o mal escondido nos corações locais era acobertado com hipocrisia. Quem destoasse disso merecia ser retalhado e eliminado para manter a paz aparente.”

Curiosidades

  • The Andy Griffith Show pode ter sido o ultimo programa que Kurt Cobain viu antes de morrer. Quando seu corpo foi encontrado em 08 de abril de 1994, sua TV estava sintonizada em uma estação que reprisava a serie na época.

  • A primeira vez que “Floyd The Barber” foi tocada ao vivo foi no dia 01 de maio de 1987, no GESCCO, Olympia, WA. A ultima vez foi em Camberra, na Austrália, no dia 05 de Fevereiro de 1992.

  • “Floyd The Barber” é a 6ª musica mais tocada pelo Nirvana ao vivo. Foram cerca de 183 vezes.

"Boddah"

Fã de Nirvana desde a primeira vez que o peso de "Bleach" entrou por meus ouvidos. Antes de tudo, um curioso insaciável. Pesquiso para aprender, escrevo para compartilhar o que aprendi."A curiosidade matou o gato, mas a satisfação o trouxe de volta!"
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