In Bloom – Dissecando a Musica

In Bloom – Dissecando a Musica

“In Bloom” foi escrita muito antes de seu lançamento no famoso Nevermind de 1991. Planejada para o segundo álbum da banda pelo selo Sub Pop (que nunca saiu), a canção passou por significativas mudanças até estar “pronta para a venda”. Saiba tudo sobre “In Bloom”, agora:

In Bloom – Ao Vivo

“In Bloom” foi escrita lá pelo inicio do ano de 1990. Krist Novoselic lembra que “originalmente soava como uma música do Bad Brains. Então Kurt a transformou em uma música pop”. Depois do primeiro ensaio, Kurt foi para casa e retrabalhou a música, tocando a versão revisada dela por telefone para Krist. O nome inicial da canção era “Knows Not What It Means”.

A estreia de “In Bloom” nos shows do Nirvana foi em 01 de Abril de 1990, no Cabaret Metro, em Chicago, Illinois. A letra era diferente da que conhecemos hoje, salvo o refrão que desde a primeira apresentação é praticamente o mesmo. Confira o áudio:

In Bloom – Smart Studios

Depois do show no Cabaret Metro a banda dirigiu a noite toda para chegar à Madison, Wisconsin, onde ficava a sede da Smart Studios, local de trabalho do produtor Butch Vig. Trabalhando em um ritmo frenético com Vig, o Nirvana gravou sete músicas. Fizeram cinco canções novas e regravaram duas antigas entre os dias 02 e 06. Kurt, naturalmente, estava desapontado porque não tinham feito mais. Ainda assim, cinco das canções que gravaram no Smart acabariam sendo incluídas no disco Nevermind, inclusive “In Bloom”.

Na maior parte das sessões, o Nirvana usava seu próprio equipamento, mas em “In Bloom” e “Lithium”, Vig conseguiu convencer Kurt de que seu amplificador Fender Bassman era a melhor opção. Um amplificador Mesa Boogie foi usado para os versos e, durante o refrão, ele muda para o Bassman de Vig, para um som mais pesado e com trilha dupla. A mesma caixa de bateria Yamaha que foi usada no álbum de estreia do Smashing Pumpkins, Gish, também foi usada por Chad Channing em várias músicas.

Smart Studios - Madison, Wisconsin

“In Bloom” tinha originalmente uma seção de “ponte” adicional que Butch Vig removeu. Krist Novoselic lembra que depois de a banda gravar a música, enquanto ouviam o resultado final, concordaram; “Ah, essa ponte não é tão legal assim”. Vig então cortou a “ponte” da fita master 16-track com uma lâmina de barbear e simplesmente jogou no lixo (nunca ouviremos isso).

Essas seções de gravação deveriam resultar no segundo disco da banda pela Sub Pop Records, planejado para Setembro de 1990. Kurt Cobain já havia até proposto um titulo para o disco; Sheep (Ovelha). O nome era sua brincadeira particular com as massas que, segundo estava convencido, iriam comprar seu próximo trabalho. “Porque você não quer: porque todos os demais querem”, escreveu ele em um simulacro de anúncio para Sheep. O anúncio dizia:

“Que as mulheres possam governar o mundo. Abortem Cristo. Assassinem o maior e o menor dos males. Roubem Sheep. Numa loja perto de você. Nirvana. Flores. Perfume. Doces. Cachorrinhos. Amor. Solidariedade Geracional. E Matança de Seus Pais. Sheep”.

Butch Vig tinha pensado em gravar mais algumas músicas com a banda para completar o álbum, mas com a saída de Chad Channing do Nirvana pouco tempo depois, Kurt e Krist decidiram não seguir em frente com isso. “Naquele momento nós sabíamos que a sessão do Smart não seria nosso próximo disco”, disse Novoselic. De qualquer modo, a demo resultante circulou entre a indústria da música, gerando interesse no grupo entre as principais gravadoras.

In Bloom – Sound City Studios

Mais de um ano depois da sessão no Smart Studios o Nirvana voltou a gravar seu segundo álbum. Desta vez eles estavam em contrato com a Geffen, resultado da ótima repercussão da “demo” de Sheep entre as grandes gravadoras. Eles também estavam com o novo e definitivo baterista, Dave Grohl. Butch Vig foi o produtor escolhido pelo Nirvana. Eles poderiam optar por nomes como Scott Litt, Don Dixon e David Briggs, mas devido ao ótimo relacionamento da banda com o produtor nas sessões do Smart Studios, eles optaram por manter Vig. Krist Novoselic disse:

“Foi uma ótima experiencia trabalhar com ele em Madison. A gravadora queria que trabalhássemos com outras pessoas, mas era meio intimidador e nos sentíamos confortáveis com Butch”

Desta vez eles gravaram no Sound City Studios, no Van Nuys & Devonshire Studios, em Burbank, Califórnia. As sessões aconteceram entre os dias 02 e 28 de Maio de 1991.

In Bloom - Sound City Studios
Sound City Studios - Van Nuys & Devonshire Studios, Burbank, Califórnia.

Durante a sessão de “In Bloom”, Vig tentou meticulosamente obter um bom vocal principal de Kurt Cobain. “Kurt não tinha muita paciência”, lembra Vig. “Ele queria fazer as coisas de uma só vez e depois passar para a próxima parte. Eu peguei as melhores partes dos três ou quatro takes vocais e os juntei. Às vezes ele cantava muito baixo, às vezes muito alto, então eu fui forçado a mudar o nível de volume enquanto nós estávamos gravando! É meio assustador porque você tem que conhecer a música muito bem pra isso. Eu tinha que esperar que ele não mudasse o fraseado ou fizesse algo diferente”.

Dave Grohl foi convocado para cantar as harmônicas no refrão. “Eu estava rindo muito com Dave porque o vocal estava um pouco fora do alcance dele e sua voz continuava falhando.”, lembra Vig. “Ele terminava um refrão e acendia um cigarro para recuperar o fôlego”.

O resultado final das gravações de “In Bloom” no Sound City Studios foi lançado em Nevermind, em 24 de Setembro de 1991.

In Bloom – Letra

O biógrafo do Nirvana, Michael Azerrad certa vez escreveu: “A ironia é que a música é tão cativante que milhões de pessoas cantam junto com ela.”. De fato, a história por trás de “In Bloom” é um tanto contraditória. O Nirvana queria “se soltar de rótulos”. Eles queriam mostrar que podiam fazer muito mais que barulho enquanto a plateia pulava sem nem mesmo se importar com o que estava sendo dito. Mas ao mesmo tempo, o som mais pop de “In Bloom” começou a atrair o mesmo publico que Kurt criticava e passou a ter aversão (principalmente depois do sucesso de “Teen Spitit”).

Analisando os versos de “In Bloom” é provável que você não entenda nada. Neles Cobain usa frases soltas que inicialmente não fazem muito sentido. É possível que Kurt não quisesse realmente dizer nada? Sim, é possível! De acordo com o próprio, suas letras eram a parte menos importante na construção de uma canção. Mas aí vem mais contradição… Kurt estaria simplesmente falando frases sem sentido em uma musica que critica os fãs que não se importam em “ouvir o que a banda tem a dizer”???

Sell the kids for food,
Weather changes moods
Spring is here again,
Reproductive glands

Venda as crianças por comida
O tempo muda de humor
A primavera está aqui mais uma vez
Glândulas reprodutivas

Viajando bastante e especulando, chutando muito, o verso acima poderia ter vários significados. O que farei aqui para tentar entende-lo é exatamente isso, especular.

Há quem diga que esse verso inicial estaria relacionado à exploração sexual infantil. Isso com base na frase; “Sell the kids for food” (Venda as crianças por comida), seguida por “Weather changes moods. Spring is here again” (O tempo muda de humor. A primavera está aqui mais uma vez). A chegada da primavera que causa a “mudança de humor” do tempo é a época do ano em que a prostituição está “em alta”. O verso finaliza com Reproductive glands (Glândulas reprodutivas). As glândulas reprodutivas são os ovários na mulher e os testículos nos homens. Elas são responsáveis por produzirem os óvulos e os espermatozoides então, seriam mais uma referencia ao ato sexual.

He’s the one who likes
All our pretty songs

And he likes to sing along
And he likes to shoot his gun
But he knows not what it means
Knows not what it means and I say

Ele é aquele que gosta de
Todas as nossas músicas b
onitas
E ele gosta de cantar junto

E ele gosta de atirar com sua arma
Mas ele não sabe o que significa
Não sabe o que significa, e eu digo

O refrão é mais escancaradamente dirigido por Cobain às pessoas de fora da cena musical underground que começaram a aparecer nos shows do Nirvana após o lançamento do álbum de estréia, Bleach. Ao “cara que curte todas as nossas musicas”, que “gosta de cantar junto mas não sabe o que significa”. Nas palavras de Kurt a musica era também para os “caipiras, machistas e pessoas abusivas” pelas quais ele tinha tanto desdém.

Na biografia de Kurt Cobain, Heavier Than Heaven, Charles R. Cross afirmou que a canção era um “retrato disfarçado” do amigo de Cobain, Dylan Carlson. Esse “retrado” do melhor amigo de Kurt e vocalista da banda Earth é mais notado na frase “E ele gosta de atirar com sua arma”. Dylan era parceiro de tiro ao alvo de Kurt. Foi ele também quem comprou a espingarda Remington Model 11 calibre 20, na Stan Baker Sports de Seattle. Kurt não podia compra-la pois recentemente todas as suas haviam sido apreendidas pela policia de Seattle. A Remington registrada no nome de Carlson custou US $ 307,38 e foi usada por Kurt seis dias depois, quando cometeu suicídio.

We can have some more
Nature is a whore
Bruises on the fruit
Tender age in bloom

Nós podemos ter um pouco mais
Natureza é uma puta
Machucados sobre as frutas
Tenra época florescendo

No segundo verso de “In Bloom”, Cobain novamente solta frases aparentemente sem muito sentido. Seguindo a teoria usada para entender o primeiro verso, “We can have some more. Nature is a whore” poderia estar relacionado à ganancia. O suficiente nunca é suficiente. Já em “Bruises on the fruit. Tender age in bloom”, Kurt poderia estar falando sobre os “cicatrizes” deixadas nessas “crianças vendidas por comida”. Crianças essas que estariam passando por essa “tenra idade”, florescendo, no início da puberdade.

Importante: Essa interpretação da musica é, como dito anteriormente, apenas uma especulação do que ela poderia realmente significar!

In Bloom – Videos

Muitos nem sabem mas “In Bloom” tem quatro versões diferentes de videoclipe.

O primeiro foi gravado em 1990 pelo então estudante de cinema, Steve Brown. Foi originalmente produzido para a coletânea em VHS, Sub Pop Video Network Program One, lançada em 1991. A versão da musica que aparecia nesse vídeo era a gravada nas sessões do Smart Studios. O vídeo da Sub Pop conta com a banda andando por várias partes da baixa Manhatan, incluindo a South Street Seaport, a Lowe East Side e a Wall Street.

Durante as filmagens, Krist Novoselic raspou sua cabeça como penitência por uma má performance da banda na cidade de Nova Iorque. Por isso, a versão final contem cenas com ele ainda com cabelo e outras já careca. O vídeo foi posteriormente incluído no box especial do Nirvana, With the Lights Out e o áudio dessa versão de “In Bloom” depois foi lançado no CD2 da edição deluxe de 20º aniversário do álbum Nevermind.

Data das filmagens: 25/26 de Abril de 1990.
Local: New York City, New York.
Diretor: Steve Brown
Lançamento: 1991

O segundo vídeo, criado para acompanhar o lançamento da canção como single em 1992, que havia sido gravada no Sound City Studios, foi dirigido por Kevin Kerslake. Kerslake já havia dirigido os videoclipes de “Come As You Are” e de “Lithium” para a banda. A ideia original de Cobain para o vídeo era contar a história de uma jovem garota nascida numa família Klu Klux Klan e que um dia percebe o quanto eles eram maus. A ideia era muito ambiciosa, então Cobain resolveu parodiar as apresentações musicais de grupos da década de 1960 em programas de variedades, tais como o Ed Sullivan Show.

O tom humorístico do vídeo foi resultado de Cobain estar “tão cansado de, no último ano, as pessoas nos levarem tão a sério, eu queria mostrar que temos esse lado divertido.” Kerslake filmou o vídeo numa câmera Kinescope antiga (para deixa-lo com mais cara de anos 60) e a banda improvisou a apresentação. O vídeo começa com um apresentador (interpretado por Doug Llewelyn), cujo nome não é dito, apresentando o grupo para a plateia de adolescentes histéricas no estúdio. Os membros do grupo, aos quais o apresentador chama de “rapazes decentes”, estão vestidos ao estilo dos Beach Boys; Cobain usava óculos que embaçavam sua visão.

Ao final do vídeo, o grupo destrói o cenário e os instrumentos. Embora parecesse que havia uma multidão presente, não havia ninguém. Krist cortou o cabelo para as filmagens e os óculos que Kurt usava acabaram o deixando tonto.
Esta versão do vídeo (com a banda somente usando trajes formais) nunca foi ao ar.

Data das filmagens: Outubro de 1992.
Diretor: Kevin Kerslake
Lançamento: Nunca lançado oficialmente

O vídeo dirigido por Kerslake, acabou resultando em três versões diferentes. A que vimos acima é uma delas, mas Kurt pretendia substitui-la com uma nova versão onde a banda usava vestidos em vez de ternos.

Um novo vídeo, no mesmo cenário, foi filmado para pôr em pratica a ideia de Kurt de se vestirem com roupas femininas (mais uma provocação ao publico machista). Depois de prontas as filmagens do “In Bloom travestido”, o programa da MTV, 120 Minutes insistiu para lançar o vídeo, mas Kurt negou.

Data das filmagens: Outubro de 1992.
Diretor: Kevin Kerslake
Lançamento: MTV 120 Minutes – 1992

Cobain ainda achava que o humor que ele queria transmitir, não seria compreendido. Para ele, uma saída foi misturar cenas das duas versões a fim de tentar “equilibrar” as coisas.

Essa ultima edição resultou no vídeo que se tornou a versão oficial e acabou ganhando por exemplo o premio de “Best Alternative Video” (Melhor Vídeo Alternativo) no MTV Video Music Awards de 1993, depois de liderar a categoria de videoclipe do “Village Voice Pazz & Jop” em 1992.

Data das filmagens: Outubro de 1992.
Diretor: Kevin Kerslake
Lançamento: 1992

Floyd The Barber – Dissecando a Musica

Aproveite para ler também a nossa dissecação de "Floyd The Barber". TUDO sobre os personagens e a musica:

"Boddah"

Fã de Nirvana desde a primeira vez que o peso de "Bleach" entrou por meus ouvidos. Antes de tudo, um curioso insaciável. Pesquiso para aprender, escrevo para compartilhar o que aprendi."A curiosidade matou o gato, mas a satisfação o trouxe de volta!"
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