A história de “Grandpa”

A história de “Grandpa”

Quem viu a foto abaixo, postada na nossa pagina do Facebook com a legenda: “Kurt Cobain​ e ‘Grandpa’ fotografados por Mary Lou Lord.” pode ter ficado curioso pra saber quem é “Grandpa”. Então vamos a uma breve (só que não) explicação.

A história de “Grandpa”, o Martin D-18 de Kurt Cobain

A história deste Martin D-18, 1953 (numero de série #132933) começa em 1988, quando foi comprado por Mary Lou Lord, uma música de rua – indie folk de Salem, Massachusetts. De acordo com Mary Lou, o apelido de “Grandpa” (Vovô), como o violão é conhecido hoje, foi dado carinhosamente por Kurt Cobain, devido à sua semelhança com um velho e “grosseiro” avô: mau vestido e desgastado, mas cheio de histórias, memórias, sabedoria e charme. A seguir, um trecho das lembranças de Mary Lou:

“Fui apresentada aos violões Martin pela minha amiga e mentora, a cantora e compositora Shawn Colvin. Shawn tocou com um D-28 dos anos 60 e foi esse violão que me influenciou a procurar um Martin Guitar para mim. Quando finalmente encontrei este D-18 bem usado no The Music Emporium, em Lexington, MA, foi amor à primeira vista. Ao longo dos próximos anos, este violão abriu caminho no mundo comigo, de The Powell Street, em San Francisco, para Covent Garden, em Londres. Este violão foi meu amigo durante os altos e baixos…

 
Em 1991, conheci e fiquei amiga de Kurt Cobain. Eu era uma fã do Nirvana há meses, desde a obtenção de uma cópia antecipada de Nevermind (album) em Abril de 1991, ou algo assim. Aprendi quase todas as músicas desse álbum que foi lançado em Setembro, mesma época em que eu conheci Kurt.
Minha amizade com Kurt tornou-se romântica quase que imediatamente. Foi realmente um momento maravilhoso para mim. Eu estava com Kurt quase todos os dias durante a primeira parte dessa turnê e estávamos profundamente apaixonados. Foi durante esse tempo que eu soube que ele estava precisando de um violão. Eu disse a ele que queria dar-lhe o melhor presente do mundo – meu Martin… pelo qual naquele momento, ele também já estava apaixonado. Ele disse que pegaria o violão sob uma condição, que se ele fosse grande musicalmente, ele me compraria outro (ou ele me devolveria esse e compraria outro para ele). Como eu poderia dizer não a Kurt? Ele o adorava, eu o adorava e ele me adorava. Além disso, eu realmente queria um D-28 naquele momento e seria uma honra para ele pegar o D-18.
 
 
 
No entanto, ao longo dos meses que se seguiram, ocorreram muitas mudanças. O Nirvana estava varrendo o país em uma turnê importante e ganhando impulso com cada giro de seu novo single “Smells Like Teen Spirit“. Eu tive a sorte de viajar com a banda em boa parte dessa tour, com Kurt andando no meu carro. Quando chegamos ao Centro-Oeste, tive que retornar ao meu trabalho na Mystery Train Records, em Boston. Kurt ficou com o violão e fizemos planos para nos encontrarmos na Inglaterra durante a fase européia da turnê. As coisas pareciam boas…
O que eu ainda não sabia, era que, durante esse tempo, um mal sombrio estava rastejando até nós e as coisas não estavam ‘correndo às mil maravilhas’ como pareciam. Quando eu me encontrei de volta com Kurt na Inglaterra, inicialmente as coisas estavam boas, mas no final da primeira semana elas deram uma volta estranha. Aparentemente, Kurt tinha se encontrado com outra mulher mais tarde na turnê dos EUA: primeiro nome… Courtney… sobrenome… Love. Uma coisa levou a outra e, em um turno de eventos interessantes (embora dolorosos), as coisas ficaram muito estranhas, muito rápido… Quando Courtney Love descobriu que eu estava em Londres com Kurt, ela basicamente pirou. Embora ela certamente não fosse sua namorada no momento, ele sabia que ela estaria pulando no próximo avião disponível para chegar até ele (provavelmente para chutar minha bunda)…
 
Voltei para Boston e comecei a tentar juntar as peças desse quebra-cabeças. O resto dessa história é praticamente ‘estória’.
Quando vi o Kurt em seguida, ele estava no MTV Unplugged. Embora me tenha entristecido muito depois de tudo o que passamos, sorri quando vi que ele estava tocando com outro D-18 já bem desgastado. EU SEI que ele o escolheu por seu amor pelo “Grandpa”.
Eventualmente, recebi o “Grandpa” de volta. Quando perguntei a Kurt sobre isso mais tarde, ele me disse que não achava justo ficar com ele, embora ele gostasse muito. Tenho certeza de que Courtney não permitiria que ele continuasse com ele. “Whatever… Nevermind.”

 

Depois de tudo isso, uma das melhores coisas da minha vida aconteceu. Eu tive a sorte de conhecer outro compositor incrivelmente talentoso chamado Elliott Smith (Unofficial: Elliott Smith. Ele estabeleceu um novo patamar para a música e eu realmente acredito que ele seja uma das grandes vozes da nossa geração.

Em 1995, levei Elliot em sua primeira turnê como o meu ato de abertura. Eu adorava suas canções e nossa amizade era profunda. Embora nosso relacionamento fosse estritamente platônico, foi Elliot quem me ajudou a preencher o vazio após a perda de Kurt. Em ambas as turnês que Elliott e eu seguimos juntos, foi com o Martin que acabaríamos tocando nas primeiras horas da manhã em nosso quarto de hotel… Eu acredito que o “Grandpa” é o ÚNICO instrumento no mundo que foi tocado, adorado e amado tanto por Kurt Cobain quanto por Elliott Smith. Também foi tocado na ocasião por Shawn Colvin e, claro, eu. (Ele aparece na capa do meu álbum, “Mind The Gap”, e também em muitas das minhas outras fotos. Basta fazer uma pesquisa no Google Imagens por Mary Lou Lord).

 
Em 2003, Elliott morreu e isso destruiu completamente meu coração… Foi por essa época que eu comecei a libertar-me do mundo inteiro da música como eu conhecia e comecei a me dedicar à minha filha Annabelle. O Martin estava recebendo pouca atenção e, nesse ponto, guardava lembranças das quais eu queria me libertar. Ele tinha me servido bem e eu queria dar-lhe um novo sopro de vida. Ele precisava ser tocado, então em 2004 eu vendi para um negociante de guitarras e, foi isso.
 
Alguns anos depois recebi uma carta de alguém que estava prestes a comprar o violão e queria saber se estava tudo certo. Fico feliz em dizer que o violão que Kurt Cobain chamava de “Grandpa” e Elliott Smith chamava de “Gramps”, agora reside na coleção permanente do Make’n Music em Chicago, IL. Dizem que ele é tocado regularmente e adorado por muitos visitantes que querem ouvir as ‘histórias’. Em ocasiões especiais, até mesmo está disponível para outros músicos para fins de inspiração e para uso em gravações.

Fotos feitas para o leilão do Martin D-18
Estou feliz por ter sido dona dele – me serviu bem – e por ter compartilhado as memórias que este violão maravilhoso possui.” – Mary Lou Lord
 
Como contado na história de Mary Lou, o Martin D-18 foi vendido. Em 06 de Outubro de 2006 aconteceu um leilão que de acordo com o Heritage Auctions, não foi concretizado. No ICollector consta como arrematado por 42,500.00 dólares. Enquanto em outros sites consta como arrematado por 29,875 dólares. De qualquer forma, ele estava em excelentes condições e com um som magnífico. As marcas de arranhões na superfície só se somam à mística do violão.
 
 
 
Após receber uma foto do D-18, o historiador da C.F. Martin & Co., Dick Boak, a publicou no “Sounding Board Journal” da empresa, que resolveu adquiri-lo para o seu museu. Hoje ele faz parte da coleção de Chris Martin IV e está exposto ao lado de peças que pertenceram a Johnny Cash, Elvis Presley entre outros, no Martin Guitar Museum em Nazareth, Pennsylvania.

"Boddah"

Fã de Nirvana desde a primeira vez que o peso de "Bleach" entrou por meus ouvidos. Antes de tudo, um curioso insaciável. Pesquiso para aprender, escrevo para compartilhar o que aprendi."A curiosidade matou o gato, mas a satisfação o trouxe de volta!"
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